Odontologia Forense: Como o dente revela a identidade de uma pessoa?

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O caso da corretora de imóveis Daiane Alves Souza chocou o país. Porém, além da revolta, o acontecimento trouxe à tona uma face da odontologia que muitos só conhecem por séries de TV. Em outras palavras, não é preciso dar play em CSI para ver a Odontologia Forense (ou Legal) em ação. Na verdade, essa especialidade está mais presente na vida real do que você imagina.

Pois bem, após essa contextualização, vamos ao que importa. De acordo com a Polícia Científica de Goiás (PCI), o corpo de Daiane não pode ser identificado de forma visual ou papiloscópica (pelas digitais). Portanto, a confirmação da identidade da corretora dependerá do DNA extraído de seus dentes.

Mas por que o dente? Por que, em situações extremas, ele se torna o último recurso da ciência? Hoje, vamos entender como essa especialidade atua, quem são os profissionais por trás das perícias e por que o seu sorriso é, literalmente, uma “caixa-preta” biológica.

O caso Daiane Alves: Quando o dente se torna a última prova

A trágica morte da corretora Daiane Alves pelas mãos do síndico do prédio onde morava, apresenta um desafio pericial comum. Acontece que, em crimes violentos ou onde há tentativa de ocultação de cadáver, ocorre a degradação do corpo. Dessa forma, quando os tecidos moles (pele, músculos, órgãos) já não permitem a coleta de digitais ou o reconhecimento facial, a Odontologia Forense entra em cena.

No caso de Daiane, o anúncio de que a identificação será feita via DNA dentário ocorre porque os dentes são as estruturas mais resistentes do corpo humano. Eles suportam altas temperaturas, processos de decomposição severos e até ataques químicos.

O que é, afinal, a Odontologia Forense?

A Odontologia Forense ou Legal é a especialidade que aplica os conhecimentos da odontologia a serviço do Direito. O dentista forense não está ali para tratar cáries ou fazer clareamentos. Na verdade, ele está ali para interpretar evidências biológicas que auxiliem em processos judiciais, cíveis, criminais e trabalhistas.

Sendo assim, quem pode exercer? No Brasil, para atuar nessa área, o profissional deve ser formado em Odontologia e possuir uma especialização em Odontologia Legal reconhecida pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO). Muitos desses profissionais atuam como Peritos Criminais (após aprovação em concurso público) em Institutos Médico-Legais (IML) ou como assistentes técnicos em disputas judiciais.

A “caixa-preta” biológica: Por que o DNA do dente é tão especial?

Antes de tudo, para entender a extração de DNA, precisamos olhar para a anatomia dental. Imagine o dente como um cofre fortificado:

  1. Esmalte: É a camada externa, o tecido mais duro do corpo humano (mais que o osso). Ele protege o interior contra calor e bactérias.

  2. Dentina: Uma camada intermediária que amortece impactos.

  3. Câmara pulpar: No centro do dente, reside a polpa. É aqui que está o “tesouro” para a genética: vasos sanguíneos, nervos e, consequentemente, células ricas em DNA nuclear e mitocondrial.

Como a polpa está protegida por camadas altamente mineralizadas, o DNA ali contido fica preservado mesmo quando o restante do corpo sofreu danos severos. É por isso que, no caso de Daiane Alves, os dentes se tornaram a fonte primária de material genético viável.

O processo de identificação:

  • Limpeza e descontaminação: O dente é limpo externamente para evitar contaminação por DNA ambiental.

  • Acesso à polpa: Em seguida, o perito realiza uma abertura (similar a um acesso de canal) ou o esmagamento criogênico do dente.

  • Extração química: Reagentes específicos isolam o material genético das proteínas e gorduras.

  • Amplificação (PCR): O DNA é “copiado” milhões de vezes para que possa ser lido.

  • Comparação: Enfim, obtém-se o perfil que comparam com o DNA de familiares diretos (como pais ou filhos) ou com amostras da própria vítima coletadas em vida (como uma escova de dentes ou fios de cabelo).

Além do DNA: A identificação por registros odontológicos

Embora o DNA seja o “padrão ouro” moderno, a Odontologia Forense possui um método ainda mais rápido e econômico: a identificação comparativa.

Cada boca é única. O número de dentes, a presença de restaurações, próteses, tratamentos de canal, o formato das raízes e até a angulação de cada dente criam um padrão exclusivo. Se a vítima tiver um prontuário odontológico atualizado (com radiografias, fotos e modelos de gesso), o dentista forense pode cruzar os dados do cadáver com os dados do consultório.

A importância do Prontuário: Aqui fica um alerta de utilidade pública: mantenha seus exames odontológicos. Eles não servem apenas para o tratamento, mas são documentos de identidade biológica valiosíssimos.

Traumatologia Forense: Quando o dente denuncia a agressão

A atuação do dentista legal não se resume a cadáveres. Em casos de agressões, violência doméstica ou acidentes de trânsito, esse profissional avalia as lesões na região bucomaxilofacial dos vivos.

Ele determina a gravidade da lesão, o instrumento utilizado e as possíveis sequelas. Isso é fundamental para a tipificação do crime (lesão leve, grave ou gravíssima) no Código Penal. Além disso, a análise de marcas de mordida em vítimas ou em objetos (como frutas ou queijos encontrados em cenas de crime) pode levar à identificação do agressor por meio da análise das imperfeições e do alinhamento dentário deixado na marca.

Curiosidades sobre a Odontologia Forense

  • O Caso Ted Bundy: Um dos assassinos em série mais famosos dos EUA foi condenado, em grande parte, por causa de uma marca de mordida deixada em uma das vítimas. O dentista forense provou que a dentição de Bundy coincidia perfeitamente com a marca.

  • Identificando Hitler: Os restos mortais de Adolf Hitler foram confirmados em 1945 através da análise de suas próteses dentárias complexas, comparadas com os registros de seu dentista pessoal.

  • Estimativa de idade: Através da análise do desgaste dos dentes e do desenvolvimento das raízes (especialmente dos terceiros molares, os sisos), peritos conseguem estimar com precisão a idade de crianças e adolescentes em casos de adoção ilegal ou imigração.

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